A casa dos meus pais tem um pássaro enclausurado. O seu nome é Jaime e é um agapornis. O Jaime gosta de imitar o som das janelas a abrir. Em todo o seu desconhecimento aquele é o som dos seus iguais.Nas escolas onde há aulas discutem-se muitos assuntos. O crescimento é constante. Reflecte-se o ambiente onde se cresce. Fala-se disto e daquilo com a mesma importância com que se prega uma estalada em alguém. E com razão. O peso de uma estalada muda o mundo a muita gente. Assim muita gente tivesse os dedos dos outros marcados na cara e sempre se agia e reagia. Fora dali nada. Fala-se e discute-se sem violência. Só o preço de uma carteira vale um bocadinho de porrada. Depois falam, falam e nunca acontece nada. Fora daqui há bombas e movimento. Há quem nasça mas acima de tudo há quem morra.
Lá fora já não há Portugal. A velhice não os aflige tanto. Normalmente morrem mais cedo que nós. O turbilhão verde e branco que se verga aos pés da bola fala estrangeiro. Reflecte o pensamento par. O espaço sideral é uma tragédia sem irmãos. Por isso as estrelas cospem-se inevitavelmente numa cerimónia invariável. Por vezes há porrada. Nesse frenesim semanal acontece um milagre de nome misterioso: a Nódoa Negra. Lugar de fantasmas ocos lânguidos de sobremesas, há quem se excite e berre um bocadinho mais alto. Por vezes caem bancadas com milhares de pessoas em cima que morrem esborrachadas. Outras, em pânico, morrem em fuga espezinhadas. O árbitro apita e é final do jogo. Partem-se umas vitrines, bebem-se umas imperiais, comem-se uns tremoços, pastéis de nata e milagre dos milagres está tudo bem, no próximo Domingo há mais. Acontecem ainda lugares sem doces nem salgados. Mais do que Nódoas são Buracos. Sítios em que o Nada cresce entre o Vazio. Tudo é sugado para o completo esquecimento. Lugares distantes em que os dias crescem imutáveis. Seres opulentos mostram-se uns aos outros enquanto baixam as calças e urinam. Cães sequiosos atracam-se àquelas pilas e arrancam pedaços de carne uns aos outros enquanto ganem ao som da urina. O cheiro doce das pipocas que se vendem em feiras invade todos os lugares. Os humanos que por ali ainda sobrevivem tentam retirar aquele cheiro dos seus corpos em piscinas comunitárias. É normal encontrar ali gente vermelha e inchada de tanto se esfregarem. No entanto o cheiro permanece e aumenta de dia para dia. Já nada os salva. As suas casas têm janelas de alumínio que eles abrem e fecham em busca de um pouco de prazer. Os guinchos dos animais são piares envoltos no doce da pipoca. Os seus filhos esmurram-se num desafio final à autoridade e do caos gerado um enorme vómito a eternidade explode bem no centro gravitacional do Universo. É a vida que acontece. Lenta e material. Um vácuo elástico e geracional. Histérico e extremamente moldável.
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